Hoje vim pro escritório ouvindo o mp3 que o Dr. Queroz me deu de presente. Uma das músicas me remeteu à minha infância. De certo modo podia ser um pedaço da minha história pessoal. É uma composição da dupla Wilson Moreira e Nei Lopes: "Coisa da Antiga":
Na tina, vovó lavou, vovó lavou
A roupa que mamãe vestiu quando foi batizada
E mamãe quando era menina teve que passar, teve que passar
Muita fumaça e calor no ferro de engomar
Hoje mamãe me falou de vovó só de vovó
Disse que no tempo dela era bem melhor
Mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão
Tinha-se mais amizade e mais consideração
Disse que naquele tempo a palavra de um mero cidadão
Valia mais que hoje em dia uma nota de milhão
Disse afinal que o que é de verdade
Ninguém mais hoje liga
Isso é coisa da antiga, ai na tina...
Hoje o olhar de mamãe marejou só marejou
Quando se lembrou do velho, o meu bisavô
Disse que ele foi escravo mas não se entregou à escravidão
Sempre vivia fugindo e arrumando confusão
Disse pra mim que essa história do meu bisavô, negro fujão
Devia servir de exemplo a "esses nego pai João"
Disse afinal que o que é de verdade
Ninguém mais hoje liga
Isso é coisa da antiga
Oi na tina...
É admirável a capacidade dos poetas populares para captarem o conteúdo do inconsciente coletivo.
Por isso presto tanta atenção à poesia que vem das ruas, dos guetos, dos terreiros, das rodas "onde tantos iguais se reunem contando mentiras prá poder suportar", como diz o "Rancho da Goiabada"de João Bosco e Aldyr Blanc Mendes