Vou tomar a liberdade de falar sobre planejamento.
Se parecer pretencioso me perdoem, mas não consigo resistir á tentação.
Tenho a sensação de que nós brasileiros, de um modo geral, somos avessos à atividade de planejamento. Julgamos o improviso como criativo e acreditamos que uma sequência de ações pode muito bem substituir a chatice do plano.
É aí que ficamos sujeitos às intempéries e creditamos ou debitamos os acontecimentos à Providência Divina.
Conheço dois bons exemplos de planejamento; as orquestras e as escolas de samba.
Uma reunião de músicos não configura uma orquestra, por mais competentes que sejam esses músicos. Uma reunião de sambistas não configura uma escola de samba por mais bambas que sejam esses sambistas.
Assim também, uma reunião de ações não configura um plano, por melhores que sejam as intenções de cada uma dessas ações.
As chaves do plano são - na minha opinião - propósito e coordenação.
Quando há um plano todas as ações além dos seus efeitos individuais servem à busca desse propósito e obedecem às políticas por ele sugeridas.
Na escola de samba, por exemplo, as alas são dispostas da forma que melhor servir para contar o enredo.
Todos os componentes têm um papel definido durante o desfile e se subordinam aos quesitos do regulamento.
Não há espaço para improvisos.
É por causa disso e do compromisso que todos os componentes tem com o propósito - que é receber nota 10 em todos os quesitos - que mais de treis mil pessoas cumprem o desfile, no tempo definido pelo regulamento, com ou sem atropelos de última hora.
Nem por isso se perde criatividade, alegria, beleza e se deixa de propor surpresas.
Um dia descobriremos as vantagens desse sistema para todas as atividades da nossa vida, particularmente as públicas e talvez então possamos deixar por conta da divindade apenas o que for de natureza divina.
Até lá vamos viver sendo rebaixados para o segundo grupo.