Mamãe foi embora no domingo.
Ontem nos reunimos para sepultá-la no Cemitério do Marui.
Não tenho mais a quem perguntar sobre os amigos do papai, dos tempos de Rio Bonito, sobre como se sabe que o arroz já está cozido ou qual a erva que serve para dor nos rins.
Acabou um pedaço da minha vida.
Dona Eponina Conceição da Silva se foi na Quaresma. ela que sonhou ser porta estandarte.
Quase completou 95 anos (faria em junho). Maioria dos quais na luta diária para criar os três filhos, cuidar do marido doente e ainda ajudar um montão de gente. Desde filhos "de leite" (amamentou muitos) até agregados em geral. Comidinhas, carinho, bronca e rezas.
Na declaração do óbito o escrevente me perguntou se ela deixava bens e respondi que não.
Menti.
Deixou uma porção de conselhos, de coisas aprendidas na lida. Lavando "prá fora", cozinhando na casa dos outros, em pensões, hotéis e bares.
Trabalhou duro essa india bonita!!
Roubo, para dar prá ela, um verso do Paulo Cesar Pinheiro para Clara Nunes:
" Voa meu sabiá!
Canta Meu sabiá!
Adeus meu sabiá!
Até um dia."