Meu Amigo Jorge Carrano Senior deixou um comentário no post anterior, lembrando uma coisa que papai e eu tínhamos em comum. Já perto do fim eu fazia as unhas e aparava os calos dele. Com muito vagar, por causa da deficiência importante de circulação e do consequente risco de ferimentos.
Era uma ocasião muito íntima nossa.
Ficávamos no quintal, ele punha os pés no meu colo e, enquanto eu cortava e raspava, nós falávamos das coisas do mundo.
Eu contava minhas aventuras. Ele lembrava dos amigos de Rio Bonito. Ríamos os dois, cúmplices que éramos, apesar da aparência feia dos pés dele e do perigo que, mesmo um pequeno machucado, representava para a saúde frágil dele.
Um dia, meu filho caçula - Rodrigo - que devia ter uns quatro anos, ficou um tempão observando a cena e numa certa hora perguntou o que eu fazia. E eu disse: -" estou cuidando dos pés do vovô. Um dia você vai cuidar dos meus da mesma forma".
No retorno a São Paulo, enquanto eu dirigia, o Rodrigo começou a me chamar e eu, preocupado com a direção, perguntei: - "Que foi Rodrigo?"
E ele, com seriedade infantil, me disse: - " Pai, pede pro André!
Sugerindo que eu entregasse a tarefa de cuidar dos meus pés, quando eles estivessem arruinados, para seu irmão mais velho, considerando a má impressão que a cena havia causado nele.
A história do "velho Castelo " sempre foi assim, tragicômica. Talvez porque a vida seja assim, um tempo no qual como escreveu Billy Blanco: "O que dá prá rir, dá prá chorar.. Questão só de peso e medida. Problema de hora e lugar. Mas tudo são coisas da vida.".