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Palpite
Por:
Mario Castelar
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Para o papai o cúmulo da pobreza não era a falta de dinheiro, era a falta de palpite para o jogo do bicho.
Um dos amigos do papai, em Rio Bonito, consertava guarda-chuvas. Uma profissão tão improvável como ele próprio. Não tinha nada de seu, exceto a família e os amigos. Tinha mulher e filhos - muitos.
Lembro dele; alto, muito magro, de chapéu e sempre limpando a boca com a manga da camisa.
Andavam sempre juntos- ele e papai - e, durante um tempo, anotaram apostas do jogo do bicho.
Quando Dutra fechou os cassinos e proibiu o jogo, papai andou fugindo. Arriscando a sorte no bacará nas cidades do interior e pegando carona nos carros de venda da Companhia de Cigarros Souza Cruz.
Papai contava que, só uma vez, viu seu amigo perder a calma.
Foi quando amanheceu com um daqueles palpites fortes para o bicho e sem um tostão para apostar.
Meditando, na porta do barraco, viu umas galinhas ciscando e perguntou à mulher: - Mulher! De quem são essas galinhas?, iluminado pela idéia de vender uma delas, para seguir o palpite.
A mulher foi desfiando os nomes dos donos das galinhas (a família era enorme); - Aquela é do fulano, a outra do sicrano.
E foi, num indicar sem fim, gastando a paciência do coitado, até que só restou uma galinha velha e doente. - Aquela é a sua.
Sem uma palavra, limpando, compulsivamente, a boca na manga da camisa, ele foi até o fundo do terreiro, onde jazia a sua galinha e, segurando o bicho pelas pernas, o partiu em dois.
Feito isso, deixou os pedaços por lá mesmo e foi, para a rua, tentar arrumar algum para a fezinha do dia.
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