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Pensão familiar
Por:
Mario Castelar
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Embora a comida não fosse à la carte, mamãe acabava fazendo pratos especiais para os doentes ou atendendo às mais diversas manias. Aliás, atender manias era a especialidade da casa.
Praticávamos a customização e o one to one marketing.
Havia um freguês, por exemplo, chamado Seu Barcellos, que era o único a ter o guardanapo enfiado num anel de madeira. Todos os dias, o encarregado de preparar o lugar dele (sempre à cabeceira), tinha que lembrar de colocar o tal guardanapo no anel de madeira. Por certo, o anel agregava valor ao guardanapo.
Manoel tinha problemas digestivos e sempre foi preparada para ele uma dieta especial, servida na cozinha e não na mesa, junto com os demais.
Ouvíamos programas de rádio: PRK 30, Tancredo & Trancado, Piadas do Manduca, Jerônimo, as Aventuras do Anjo, Incrível /Fantástico/ Extraordinário. Ouvíamos boleros: Relógio, La Barca, (ainda sei trechos da letra de alguns) fados: Mouraria, Alfama, Lisboa.
Éramos ouvintes da rádio Nacional do Rio de Janeiro e da Rádio Mairinque Veiga.
Estou convencido que grande parte da minha formação vem daí.
Para acompanhar uma história em capítulos, pelo rádio, é preciso prestar atenção, lembrar do capítulo anterior.
Havia tardes, em que ficávamos na varanda, ouvindo rádio, aprendendo a resolver palavras cruzadas ou matando charadas com Zé Dantas.
Resolver palavras cruzadas. Matar charadas.
Não é o que fazemos nessa profissão?
Juntar peças pacientemente e esperar que os próprios pedaços do enigma nos contem sua história. Nos digam aquilo que desejamos saber, como quando consultamos um oráculo.
No mundo em que eu vivia, quando pequeno, havia muitas pessoas capazes de ler sinais; na borra do café, nas mãos, nas vísceras dos animais; nas cascas da laranja. Gente que escutava vozes e gente que adivinhava direto, sem nenhum subterfúgio.
Eu tenho que recorrer à memória.
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Mario Castelar
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