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Papagaio

Tivemos um papagaio na pensão ( quer dizer um especial ). Como todo papagaio que conheço, era chamado/chamava a si próprio de louro. Louco pelo papai  (a quem também chamava  de papai ).

Ficava num poleiro na porta da cozinha, de onde tinha uma visão privilegiada do pátio interno,  de parte da varanda, da cozinha e do corredor.

Várias vezes por dia, vendo papai passar carregando pratos para servir à mesa, punha-se a gritar - Papai! Papai! , até que ele parasse. Então, com aquele jeito gingado, descia do seu posto, ia até o papai, subia, pela roupa, até o ombro, onde - com outro tom de voz - murmurava, enternecido - papai... papai ....

Um dia papai viajou para Macaé. Foi  fazer tratamento para seu problema  de circulação, tomando banhos de mar nas águas frias e saturadas de iodo da região.  O louro passava horas chamando.  Penalizados, informávamos sempre - papai foi prá  Macaé, louro .

Quando papai voltou, o papagaio passou chamá-lo de Macaé. Mantendo o ritual  de caminhar até ele, subir até o ombro e, mudando o tom de voz, ficar murmurando - 'Macaé... Macaé'.

Um dia sumiu. 

Encontramos só umas poucas penas na cozinha.

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