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BANALIZAÇÃO
Por:
Mario Castelar
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Tenho sentido que algumas palavras vêm sendo desprovidas de sua solenidade e, de formais que eram, passaram a ser presenças constantes no nosso dia - a- dia, até perderem a capacidade de impressionar daquele jeito especial.
Parece que elas nasceram com uma carga de significado e, como as baterias, foram perdendo, com o uso, a força original, até não conseguirem significar mais nada.
O humorista Chico Anísio conta uma piada que explicita o que estou tentando dizer:
Diz que se o Papa morasse no Brasil, particularmente no Rio de Janeiro, logo seria entrevistado para opinar sobre quem deveria jogar na ponta esquerda da seleção brasileira de futebol e que, quando passasse pelas ruas, seria saudado pelo homem comum aos gritos de - fala Santidade!.
Percebo a banalização como uma espécie de ferrugem que ataca o comportamento e, particularmente, as palavras.
Há um momento no qual alguém diz algo e não consegue nos passar o que pretendia, porque suas palavras, chegam até nós vazias de significado.
E assim, fica cada dia mais difícil transmitir nosso modo de ver/ouvir/sentir a realidade.
Mesmo agora, ao escrever sobre isso, tenho que realizar uma espécie de teste com cada vocábulo (como se faz com as lâmpadas antes de comprá-las, para ver se acendem), sentindo ou tentando sentir se sua, digamos assim, carga me é satisfatória.
Fora alguns casos, por demais óbvios, parece ser quase impossível saber se estamos utilizando palavras válidas ou vencidas, até que nossos interlocutores nos demonstrem isso de algum modo.
Imagino que a alegada dificuldade de expressão dos jovens, além de ser produto de evidentes deficiências do ensino, decorre em grande parte dessa impotência das palavras para traduzir significados, porque tudo, ou quase tudo, ficou próximo, comum, banal.
Quando eu era pequeno, havia expressões muito graves, como palavra de honra, por exemplo.
'Amor', só para citar mais uma, era dessas palavras quase secretas. Não se dizia - te amo a torto e direito.
Hoje não. Hoje, todas as pessoas podem ser um amor e nós, sem que o céu nos caia na cabeça, podemos declarar nosso amor a qualquer indivíduo.
Dá-se o mesmo com as ofensas - chego a pensar que mais dramaticamente com elas. Quase todas não ofendem mais. Particularmente quando acrescentamos a qualquer delas uma complementaridade, como, por exemplo, no bom sentido.
É possível ouvir alguém dizer: - fulano é um filho da puta, para acrescentar, em seguida: - no bom sentido, é claro.
Vai-se evoluindo com o uso até que um dia, falar ou escrever determinada palavra não resolve, não contenta, não satisfaz o emissor da mensagem e acaba, também, por não atingir o receptor.
De fato, um sujeito ao ser chamado de filho da puta hoje em dia, precisa, antes de se sentir ofendido, saber se o termo foi empregado no bom ou no mau sentido.
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Mario Castelar